Carta a um filho de uma mãe lulista
Escrevo-te do Planalto. Não o palácio. Estou em atividades acadêmicas na UnB, na sequidão do cerrado brasiliense. A baixa umidade, aqui, resseca minhas narinas, mas, felizmente, não me causam danos a ponto de eu não poder sentir o cheiro e o som da alegria que tem ocupado e tremido as ruas nesses dias pré-segundo turno eleitoral.
Esta carta não é uma resposta à sua “Carta a uma mãe lulista que partiu”, publicada no Saiba Mais, mas, apenas, uma forma de exercitar o diálogo contigo, que sempre foi aberto e franco, em torno das minhas/nossas inquietações diante da dramaticidade dos tempos atuais.
Compartilhá-las contigo é um desdobramento inelutável. Afinal, costuramos uma história em comum, nas reuniões do movimento estudantil, às sombras das frondosas árvores no Centro de Saúde, em tardes dominicais; nos corredores e bancos dos setores de aula da UFRN; sob a proteção da Residência e do Restaurante Universitário; em reuniões partidárias e dos mandatos parlamentares em que fornecemos nossa energia intelectual-militante.
Nossa militância foi forjada arrancando alegrias e esperanças desses chãos, projetando-as com nossos tênis e roupas tacanhas, nossos cabelos muito pretos (rs), nossa oratória enérgica e nossa disposição imaculada. E assim, desde 1988, estivemos nas mesmas trincheiras em todas as campanhas eleitorais.
A poucos dias de um segundo turno decisivo para nossas vidas, vivo o realismo esperançoso de Suassuna: os desafios são imensos, mas não precisamos transformá-los em hidras de Lerna, nem, também, diminuí-los em dificuldades passageiras.
Olhando ao nosso redor, ao sul do continente, estamos cercados de vizinhos direitistas raivosos. Os ventos que sopram do Norte também não são favoráveis e ainda são capazes de, invisíveis (ou não tanto), ocupar os dispositivos eletrônicos de cada pessoa, organizando, pelas manhas dos algoritmos, o que se oferece ao acesso delas.
Apesar das descaradas parcialidades da justiça eleitoral e das bigtechs, houve um avanço da capacidade da esquerda mover-se e se colocar-se nesse campo das redes sociais. Ainda assim, o sentimento que me toma é de que nossos ganhos para a disputa neste segundo turno são desdobramentos da ocupação das ruas e dos espaços orgânicos, da conversa olho-no-olho. Mesmo as abordagens virtuais só têm tido efeito quando sustentadas em relações pessoais com lastro numa cotidianidade baseada no contato real.
Ontem, no Restaurante Universitário da UnB, um jovem preto ergueu sua voz, subitamente, em meio aos ruídos de pratos e talheres. Expunha que estar ali, naquela instituição, era um sonho realizado dele e de sua família. Ele, o primeiro a entrar em uma universidade. Temia que por causa da escolha de outras pessoas (talvez algumas presentes ali), seus sonhos, e de outros da mesma cor de pele ou da mesma origem de classe, pudessem ser interrompidos. A última vez que eu havia batido talheres contra pratos para “aplaudir” uma fala política, em contexto parecido, foi há mais de trinta anos quando estávamos fazendo movimento estudantil.
Para alguns (acostumados a ver a política com o olhar publicitário ou dos estrategistas eleitorais), o jogo da política não se faz mais nas ruas ou nos olhos-nos-olhos, mas apenas, ou principalmente, nas redes sociais. Restaria às ruas e aos encontros orgânicos o caráter de demonstração de força. A espontânea aparição do jovem preto no Restaurante me disse outra coisa. Parece que as pessoas voltaram a não temer (ou reaprenderam a) falar sobre escolhas políticas na rua, de peito aberto, sem a proteção das telas, inclusive sob o risco de se abrir imediatamente a um território hostil, dependendo de quem estiver por perto.
A campanha do segundo turno está mostrando que isso têm (ainda) um efeito mobilizador fantástico. Mas, revela, também, outra coisa: numa eventual vitória de Lula, esse olho-no-olho, gente com gente, terá que ser reconsiderado, em um sentido mais amplo: o de principal estratégia do fazer político deste eventual quarto mandato de Lula.
Ora, internamente, a composição do Congresso pós-primeiro turno revela o processo de fascistização da direita brasileira e a configuração de um campo minado para a estratégia de governabilidade à base de alianças e acordos, tal como têm sido levado a efeito pelo PT, nos seus mandatos anteriores no Executivo Federal.
Com o campo encurtado para formar maiorias, diante de um congresso majoritariamente calcificado em posições fascistas, o horizonte que temos é o de uma noite longa. Não uma noite festiva ou tranquila, com pessoas conversando civilizadamente em suas respectivas mesas. Avizinha-se uma longa noite amarga e tensa como a de um porão, de ampliação e aprofundamento da fustigação das conquistas democráticas oriundas da Constituição de 1988.
A defesa dessas conquistas (nem falo em ampliação), seja ou não com a vitória de Lula, passa, necessariamente, pela capacidade da esquerda (não apenas do PT), transformar a marca desse segundo turno - a presença massiva das pessoas nas ruas - em organicidade popular e caminho principal para os embates vindouros, o que implica a revisão das formas como as estruturas partidárias estão atualmente organizadas e como elas têm dialogado com seus eleitore(a)s, militantes, filiados ou simpatizantes. O que já se falou tantas vezes em um passado recente como um longo processo de reforma partidária interna, agora, parece-me, necessidade imediata de organização e politização de massas.
O próximo sábado será, certamente, repleto de reluzentes manifestações de rua. Deixarei o sol queimar minha pele cinquentona e, novamente, sentirei o cheiro e o calor da multidão. Me alimentarei da alegria que faz a direita tremer. No domingo, ansiedade nos píncaros.
Um forte abraço.

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