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Carta a um filho de uma mãe lulista

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Olá, meu querido amigoirmão. Escrevo-te do Planalto. Não o palácio. Estou em atividades acadêmicas na UnB, na sequidão do cerrado brasiliense. A baixa umidade, aqui, resseca minhas narinas, mas, felizmente, não me causam danos a ponto de eu não poder sentir o cheiro e o som da alegria que tem ocupado e tremido as ruas nesses dias pré-segundo turno eleitoral. Esta carta não é uma resposta à sua “Carta a uma mãe lulista que partiu”, publicada no Saiba Mais, mas, apenas, uma forma de exercitar o diálogo contigo, que sempre foi aberto e franco, em torno das minhas/nossas inquietações diante da dramaticidade dos tempos atuais. Compartilhá-las contigo é um desdobramento inelutável. Afinal, costuramos uma história em comum, nas reuniões do movimento estudantil, às sombras das frondosas árvores no Centro de Saúde, em tardes dominicais; nos corredores e bancos dos setores de aula da UFRN; sob a proteção da Residência e do Restaurante Universitário; em reuniões partidárias e dos mandatos parlame...

B.O. (um microconto para se ler em delegacias)

Ao cruzar a esquina, foi súbita e certeira a certeza de que faltava algo...um vazio que gritava por baixo de minhas roupas. Parei no contrafluxo da rua, atrapalhando-me em minhas próprias pernas e passadas. Porraaa!!! As mãos, imediatamente, trêmulas, saíram à procura de todos os bolsos. Apalpavam, nervosas, cada volume. Insidiosos, os dedos buscavam cada recanto possível onde eu guardava volumes. Eles eram os meus olhos. Os segundos que consumiram esses momentos já se encontravam encharcados de tanto suor, quando me virei para trás e a vi, tranquila, assistindo a toda aquela cena na qual eu era o personagem e ela a escritora. Estampado em seu rosto, um sorriso malicioso emoldurado pelo olhar convicto e sacana que me dizia silenciosamente: "Te pegueei..."  Quando minhas mãos finalmente chegavam ao fim de suas incursões nervosas caçando ausências e me dei conta do que havia sido furtado a vi, novamente, brincando, simulando despretenciosidade, com meu coração em suas mãos...p...

A intempestividade da proposta de desfiliação do ADURN ao PROIFES

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Próximo dia 17 de junho, uma Assembleia do ADURN está sendo chamada para discutir a desfiliação do sindicato ao PROIFES. Não está na pauta o que devemos fazer para, unidos, avançarmos nas negociações com o governo, mas, unicamente, se devemos ou não nos separar de uma estrutura sindical com a qual convivemos desde 2012.  Gostaria de dialogar aqui sobre essa questão da desfiliação ao PROIFES. Antes, deixar claro meus posicionamentos até agora: (1) fui a favor da greve; e (2) fui contra a assinatura do acordo. Como entrei na UFRN em 1994, acompanhei (e votei favorável) a greve realizada em 1998, quando o ADURN era filiado ao ANDES-SN, bem como o processo que redundou nos acordos de reestruturação de nossa carreira, em 2012 e filiação do ADURN ao PROIFES, APÓS UM ANO de discussões na categoria. Sobre o processo atual, minha leitura é que o PROIFES errou em assinar um acordo quando sua própria base encontrava-se dividida, ainda que houvesse uma maioria desta base favoravelmente ao ence...

PROIFES e ANDES-SN: quando enfatizar diferenças é sinal de fraqueza

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Em um dos primeiros episódios da série "Fallout", um soldado ("Maximus") é conduzido ao seu comandante para se explicar ante a acusação de que haveria sabotado o companheiro (recém-promovido). Ele nega, mas escuta do seu superior que atentar contra os que estão próximos é sinal de fraqueza e não de força. E que para estar naquela unidade de combate haveria de ser capaz de enfrentar os inimigos e não os parceiros.  Por vezes, confundimos inimigos e adversários. E transformamos artificialmente pequenas escaramuças em grandiosas batalhas de vida ou morte. E enquanto nos dividimos e mergulhamos em nossas refregas, o inimigo se banqueteia e se organiza para nos derrotar. Na história política de nosso país (e do mundo), entre as esquerdas, se repete uma clivagem clássica: de um lado, estão os "revolucionários", os "legítimos defensores dos trabalhadores" e os "puros"; do outro, os "renegados", "reformistas", "força au...

EJA: por uma política educacional visível aos invisíveis

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Assim como meu amigo Alexsandro Galeno, professor do Instituto Humanitas, da UFRN, tenho minha casca auricular acostumada à audição de sentenças proferidas por políticos e militantes amigos ou adversários, entre destros e canhotos - que diminuem o valor e o alcance do pensamento filosófico ou sociológico, pela sua suposta inaplicabilidade ante a dinâmica frenética da gestão pública estatal ou os embates das estruturas políticas e burocráticas (mesmo que essa inaplicabilidade seja vista apenas pelos olhos borrados de pragmatismo desses mesmos críticos). Esse artigo é uma tentativa de exercitar o contrário, a partir do recorte de uma questão que percorre minha trajetória pessoal e profissional: a luta pela visibilidade da EJA na agenda das políticas educacionais. Recomenda-se sua leitura enquanto se escuta "Invisível", da banda Baiana System. ( https://www.youtube.com/watch?v=2PrQwMFGMUc ) No meu agir sobre o mundo, parto, reflito e me nutro de referências de leitura sobre ele....

Para ouvir Nelson Cavaquinho, depois de amanhã

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Enquanto escrevo essas linhas, escuto “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho.  Não sou analista político. Este não é meu ofício. Faço prognósticos sobre o futuro com o mesmo rigor de qualquer torcedor antes de seu time iniciar uma partida de futebol. Às vezes, acerto e me orgulho. Às vezes erro fragorosamente e tento ajustar a mira. Mas, o aprendizado em minha militância política (mais efetiva nos tempos difíceis em que defender o PT numa disputa eleitoral era algo, no mínimo, exótico), com gente, vivências e leituras, alimentam minha intuição.  Tudo o que escrevo a seguir é produto disso, neste momento em que muitas pesquisas apontam a vitória da candidatura de Lula à presidência, em meio a um processo turbulento em que até a realização das eleições foi posta em dúvida. Do ponto de vista da lógica do título deste escrito, este é o nosso “hoje”. O “ontem”, aos meus olhos com alguma perda de visão, amanheceu com a emergência explosiva, vigorosa e organizada, de um fascismo que era...

Mensagem aberta ao maestro André e à Filarmônica da UFRN

Boa noite meu querido Maestro e músicos da Filarmônica da UFRN. Recebi e compartilhei a postagem maravilhosa da Filarmônica ("Delírios da Pandemia - The Fool on The Hill).  Pela primeira vez, nesse período da pandemia, me emocionei até os olhos vomitarem lágrimas. Um misto de tristeza e alegria. De resignação e esperança. De deleite e lamúria.  Tristeza de quem não pode assistir ao vivo algo tão bonito, tão forte, tão intenso (inclusive a abertura com a leitura do poema do Tiago Xavier, pelo Cesar Ferrario e a presença radiante do Mad Dogs)  Indignação de ser obrigado a ficar em casa vendo tanta coisa linda em condições que limitam a troca de energia sempre tão fundamental entre o artista que toca e a platéia que assiste e que é cortada pela tela do computador ou do celular.  A resignação por estarmos nessa condição dói, incomoda e traz outra indignação, mais política, de como (ou até quando) deixa(re)mos que essa forma capitalista e desumana de nos relacionarmos com...