Postagens

B.O. (um microconto para se ler em delegacias)

Ao cruzar a esquina, foi súbita e certeira a certeza de que faltava algo...um vazio que gritava por baixo de minhas roupas. Parei no contrafluxo da rua, atrapalhando-me em minhas próprias pernas e passadas. Porraaa!!! As mãos, imediatamente, trêmulas, saíram à procura de todos os bolsos. Apalpavam, nervosas, cada volume. Insidiosos, os dedos buscavam cada recanto possível onde eu guardava volumes. Eles eram os meus olhos. Os segundos que consumiram esses momentos já se encontravam encharcados de tanto suor, quando me virei para trás e a vi, tranquila, assistindo a toda aquela cena na qual eu era o personagem e ela a escritora. Estampado em seu rosto, um sorriso malicioso emoldurado pelo olhar convicto e sacana que me dizia silenciosamente: "Te pegueei..."  Quando minhas mãos finalmente chegavam ao fim de suas incursões nervosas caçando ausências e me dei conta do que havia sido furtado a vi, novamente, brincando, simulando despretenciosidade, com meu coração em suas mãos...p...

A intempestividade da proposta de desfiliação do ADURN ao PROIFES

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Próximo dia 17 de junho, uma Assembleia do ADURN está sendo chamada para discutir a desfiliação do sindicato ao PROIFES. Não está na pauta o que devemos fazer para, unidos, avançarmos nas negociações com o governo, mas, unicamente, se devemos ou não nos separar de uma estrutura sindical com a qual convivemos desde 2012.  Gostaria de dialogar aqui sobre essa questão da desfiliação ao PROIFES. Antes, deixar claro meus posicionamentos até agora: (1) fui a favor da greve; e (2) fui contra a assinatura do acordo. Como entrei na UFRN em 1994, acompanhei (e votei favorável) a greve realizada em 1998, quando o ADURN era filiado ao ANDES-SN, bem como o processo que redundou nos acordos de reestruturação de nossa carreira, em 2012 e filiação do ADURN ao PROIFES, APÓS UM ANO de discussões na categoria. Sobre o processo atual, minha leitura é que o PROIFES errou em assinar um acordo quando sua própria base encontrava-se dividida, ainda que houvesse uma maioria desta base favoravelmente ao ence...

PROIFES e ANDES-SN: quando enfatizar diferenças é sinal de fraqueza

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Em um dos primeiros episódios da série "Fallout", um soldado ("Maximus") é conduzido ao seu comandante para se explicar ante a acusação de que haveria sabotado o companheiro (recém-promovido). Ele nega, mas escuta do seu superior que atentar contra os que estão próximos é sinal de fraqueza e não de força. E que para estar naquela unidade de combate haveria de ser capaz de enfrentar os inimigos e não os parceiros.  Por vezes, confundimos inimigos e adversários. E transformamos artificialmente pequenas escaramuças em grandiosas batalhas de vida ou morte. E enquanto nos dividimos e mergulhamos em nossas refregas, o inimigo se banqueteia e se organiza para nos derrotar. Na história política de nosso país (e do mundo), entre as esquerdas, se repete uma clivagem clássica: de um lado, estão os "revolucionários", os "legítimos defensores dos trabalhadores" e os "puros"; do outro, os "renegados", "reformistas", "força au...

EJA: por uma política educacional visível aos invisíveis

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Assim como meu amigo Alexsandro Galeno, professor do Instituto Humanitas, da UFRN, tenho minha casca auricular acostumada à audição de sentenças proferidas por políticos e militantes amigos ou adversários, entre destros e canhotos - que diminuem o valor e o alcance do pensamento filosófico ou sociológico, pela sua suposta inaplicabilidade ante a dinâmica frenética da gestão pública estatal ou os embates das estruturas políticas e burocráticas (mesmo que essa inaplicabilidade seja vista apenas pelos olhos borrados de pragmatismo desses mesmos críticos). Esse artigo é uma tentativa de exercitar o contrário, a partir do recorte de uma questão que percorre minha trajetória pessoal e profissional: a luta pela visibilidade da EJA na agenda das políticas educacionais. Recomenda-se sua leitura enquanto se escuta "Invisível", da banda Baiana System. ( https://www.youtube.com/watch?v=2PrQwMFGMUc ) No meu agir sobre o mundo, parto, reflito e me nutro de referências de leitura sobre ele....

Para ouvir Nelson Cavaquinho, depois de amanhã

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Enquanto escrevo essas linhas, escuto “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho.  Não sou analista político. Este não é meu ofício. Faço prognósticos sobre o futuro com o mesmo rigor de qualquer torcedor antes de seu time iniciar uma partida de futebol. Às vezes, acerto e me orgulho. Às vezes erro fragorosamente e tento ajustar a mira. Mas, o aprendizado em minha militância política (mais efetiva nos tempos difíceis em que defender o PT numa disputa eleitoral era algo, no mínimo, exótico), com gente, vivências e leituras, alimentam minha intuição.  Tudo o que escrevo a seguir é produto disso, neste momento em que muitas pesquisas apontam a vitória da candidatura de Lula à presidência, em meio a um processo turbulento em que até a realização das eleições foi posta em dúvida. Do ponto de vista da lógica do título deste escrito, este é o nosso “hoje”. O “ontem”, aos meus olhos com alguma perda de visão, amanheceu com a emergência explosiva, vigorosa e organizada, de um fascismo que era...

Mensagem aberta ao maestro André e à Filarmônica da UFRN

Boa noite meu querido Maestro e músicos da Filarmônica da UFRN. Recebi e compartilhei a postagem maravilhosa da Filarmônica ("Delírios da Pandemia - The Fool on The Hill).  Pela primeira vez, nesse período da pandemia, me emocionei até os olhos vomitarem lágrimas. Um misto de tristeza e alegria. De resignação e esperança. De deleite e lamúria.  Tristeza de quem não pode assistir ao vivo algo tão bonito, tão forte, tão intenso (inclusive a abertura com a leitura do poema do Tiago Xavier, pelo Cesar Ferrario e a presença radiante do Mad Dogs)  Indignação de ser obrigado a ficar em casa vendo tanta coisa linda em condições que limitam a troca de energia sempre tão fundamental entre o artista que toca e a platéia que assiste e que é cortada pela tela do computador ou do celular.  A resignação por estarmos nessa condição dói, incomoda e traz outra indignação, mais política, de como (ou até quando) deixa(re)mos que essa forma capitalista e desumana de nos relacionarmos com...

De escolas, shoppings centers, e o que (não) aprendemos em tempos de pandemia

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O Sr. Alexandre Soares Gomes, presidente da seção potiguar da UNDIME (articulação institucional que reúne secretários municipais de educação) e secretário municipal de educação de Monte Alegre, usou das redes sociais para lamentar que ao contrário dos shoppings centers, a escolas estavam obrigadas a se manterem fechadas. Para ele, isso seria uma prova cabal da pouca valorização da educação no contexto das decisões sobre a retomada do funcionamento das atividades sociais.  O Presidente da UNDIME (em resposta a comentários de uma das pessoas que acompanharam sua postagem), observa duas realidades que se impõem no sentido do retorno das atividades escolares presenciais: (a) o desemprego na área da educação (certamente referindo-se ao conjunto de profissionais não concursados que as prefeituras contratam para garantirem a oferta dos serviços); e (b) as providências que os gestores (e suas equipes) estão fazendo para dotar as escolas de condições sanitárias adequadas à circulação d...

O que a pandemia interpela aos professores?

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A grande maioria dos professores que conheço estão vivenciando a experiência da pandemia do coronavírus mobilizados nas atividades à distância que, em alguma medida, têm que desenvolver. Vivenciam um momento de reorganização de tempos, espaços, procedimentos e relações, cuja origem tem nome, mas é invisível: o COVID-19. Como educadores, a imersão nessa nova rotinização da vida de cada um pode nos conduzir a pensar, tão somente, nas novas alternativas didático-pedagógicas funcionais à condição inevitável da distância entre nós e os educandos. E, nesse sentido, estaríamos, quando muito, mitigando os efeitos desse distanciamento, possibilitando, nem mais, nem menos, que o cumprimento do que estava estabelecido anteriormente à irrupção da pandemia. Compreender em que contexto tudo isso está se dando e os aprendizados que podemos extrair desse momento deveria ser não apenas um tarefa para consumo próprio e individual, mas fonte para nossa ação, concreta e imediata, seja agora ou pós-pan...

Dias de "confusão" na educação de Natal

"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro". (Mateus 6:24) Eu não sei se o Prefeito Álvaro Dias é cristão. Eu não sou, mas essa passagem bíblica (como tantas outras) traduz um ensinamento útil para qualquer um, independentemente de crença, porque nos apresenta um imperativo ético: não há como se dedicar a polos antagônicos impunemente. E aqui não cabe confundir “antagonismo” com “diferença”, pois nem toda diferença implica antagonismo, embora todo antagonismo envolva posições substancialmente distintas. Também não sou físico ou químico, mas aprendi que qualquer ação que pretenda misturar óleo e água, em condições normais de temperatura e pressão, ou é fruto de um autoengano ou falácia. No primeiro caso, podemos debitar na conta da falta de estudo sobre o assunto. No segundo, uma clara tentativa de ludibriar a boa fé dos outros. Falta de estudo e ...

Epistemologias...

(extrato de um tratado epistemológico encontrado nas ruínas da universaidade de Alexandria...e divulgado anonimamemte, séculos depois, na internet profunda...) DOUTORADO O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum, (Linneu, 1758) isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e restas retilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzido nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera(Linneu, 1758). No entanto, é possível compro...

Microconto daltônico

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Quando criança, pintava a bandeira do Brasil de um jeito diferente: onde havia verde, espalhava um marrom vívido, quase vermelho. No lugar do amarelo, deixava tudo em branco. O azul dava lugar a um cinza entristecido. A mãe achava tudo lindo. Dizia que havia ali pura liberdade poética. A professora de artes se arrepiava e dizia que sua releitura era de quem tinha uma personalidade forte. Até fazer o teste para aviador e ser avisado que não tinha sido aprovado por um problema: era daltônico...

A EJA no Governo Fátima: um péssimo começo

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O Rio Grande do Norte figura entre os estados brasileiros com a mais alta taxa de analfabetismo entre pessoas jovens e adultas no Brasil. O PNAD/IBGE calculou em 2017, que 13,7% da população do nosso Estado acima de 15 anos encontrava-se nessa situação.  Em 2010, o Censo do IBGE calculou em 1,2 milhão de pessoas sem instrução alguma e com o Ensino Fundamental Incompleto. Nesse mesmo ano, o número de pessoas com mais de 25 anos, sem Ensino Médio Completo era de pouco mais de 50 mil pessoas. A despeito desses indicadores e de termos um Plano Estadual de Educação com várias metas e estratégias que apontam para a superação dessa situação, as políticas do governo do Estado e da maioria dos municípios, nos últimos anos, têm se mostrado incapazes de dar conta desses desafios. A incapacidade da rede pública estadual em responder adequadamente a esse desafio se revela na queda no número de matrículas efetuadas nos últimos anos. Se tomarmos em comparação 2007 – ano de implementação ...

O retrato de uma classe, por João Elter Borges Miranda

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Um vídeo de setembro do ano passado que mostra um político qualquer chorando e enxugando as lágrimas numa bandeira viralizou nas redes sociais recentemente. Vi o vídeo e fiquei sem palavras. O papinho cheio de groselha do moleque em questão já é conhecido, mas desta vez o cara se superou. Cheguei a rir de nervoso. O que dizer desse sujeito? O vídeo é evidência cabal de que o sujeitinho mimado, que parece se achar a última bolacha do pacote, está se desenvolvendo: já era um debiloide que desmaia pra fugir do debate, agora é ainda mais. Que apelo mais baixo esse vídeo que esse filhote de fascista fez. O vídeo do floquinho de neve chorão é, de longe, o retrato de um play boy. O cidadão acha que o mundo é uma espécie de continuação de sua casa — onde todo mundo teria que ser um papai ou uma mamãe complacente, que tudo concede;  foi ensinado a acreditar que merece, seja lá o que for que queira. E quando não consegue o que quer, sente-se traído e revolta-se com a “injustiça”. ...

A Revolução Cubana completa 60 anos (por Frei Betto)

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Reproduzo aqui (sem pedir sua autorização, a bem da verdade) artigo do Frei Betto sobre os 60 anos da Revolução Cubana, trazendo alguns elementos para a reflexão coletiva sobre esse processo que sempre provoca polêmicas. "1º de janeiro de 2019, 60 anos da Revolução Cubana. Quem diria? Para a soberba dos serviços de inteligência dos EUA a ousadia dos barbudos de Sierra Maestra, ao livrar Cuba da esfera de domínio de Tio Sam, era um “mau exemplo” a ser o quanto antes apagado das páginas da história. A CIA mobilizou e treinou milhares de mercenários e Kennedy mandou-os invadir Cuba (1961). Foram vergonhosamente derrotados por um povo em armas. E, de quebra, a hostilidade da Casa Branca levou Cuba a se alinhar à União Soviética. O tiro saiu pela culatra. Mexer com Cuba passou a significar aquecer a Guerra Fria, como o demonstrou a crise dos mísseis (1962). Tio Sam não botou as barbas de molho. Transformou cubanos exilados em Miami em terroristas que derrubaram aviões, explodiram...

O reparo, o grotesco e mais luzes sobre o Conselho Estadual de Educação

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A profa. Cláudia Santa Rosa, através de comentário enviado após a publicação de nossa postagem anterior ( https://quixotesforrosebaioes.blogspot.com/2018/12/hora-de-jogar-luzes-no-conselho.html ) questionando os critérios  de escolha dos membros do Conselho Estadual de Educação (CEE), esclarece que sua indicação foi feita em substituição à dispensa de outra pessoa e que, dessa forma, não teria havido a quebra do Regimento do CEE. Agradecemos o comentário da professora e com a mesma firmeza com que escrevemos o equívoco, publicamos o seu comentário e fomos até o Diário Oficial onde, de fato, há a dispensa de uma conselheira, na mesma data de sua nomeação. E, aqui, meu pedido público de desculpas em divulgar a notícia de forma incompleta. Mas penso que a secretária deveria ter tido o mesmo cuidado ao publicar, na página da SEEC, um arquivo ( http://www.adcon.rn.gov.br/ACERVO/seec/DOC/DOC000000000190090.PDF ), no qual o Conselho encontra-se com 13 membros (em razão de seu nome const...

Hora de jogar luzes no Conselho Estadual de Educação

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No último dia 20 de dezembro o Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte publicou ato do governador Robinson Faria designando a sua secretária de educação, profa. Cláudia Santa Rosa para ocupar cargo de conselheira titular do Conselho Estadual de Educação (CEE). Nada estranho que o governador queira premiar a sua auxiliar com um posto no mais importante órgão colegiado da educação do Estado. Nada estranho, também, que tendo enviado para apreciação desse mesmo conselho, há poucos dias do fim do seu mandato, um conjunto de proposições de mudanças pedagógicas em escolas da rede estadual, a profa. Cláudia Santa Rosa queira participar de sua discussão e garantir que suas ideias e projetos tornem-se materialidade, não apenas como expectadora, mas intervindo diretamente no processo na condição de titular do CEE. Essa é uma questão que pode ser discutida sob ângulos diversos. Um, de natureza formal ou legal, diz respeito ao fato de que a designação da referida profa. (em vias de se...